AS SOCIEDADES DE ATIRADORES
Na composição étnica do estado de Santa Catarina, os alemães formaram agrupamentos consideráveis na população e conservaram muitas de suas características culturais, folclóricas e tradicionais.
Os SCHÜTZENVEREINE, como eram chamadas na língua alemã as Sociedades de Atiradores, são instituições muito antigas, trazidas para o estado com a imigração. Tiveram realmente papel na vida social, cultural e recreativa dos imigrantes. Com o passar dos anos, enraizaram-se e sobreviveram até os nossos dias, fazendo parte importante da história e da gente catarinense.
Sua importância pode ser comparada às Corporações de Atiradores da Alemanha medieval. A tradição dos clubes de caça e tiro é milenar e nasceu na Alemanha, que possui o mais antigo clube do planeta, com setecentos anos de existência e em plena atividade. Suas origens estão na distante Idade Média, quando (há cerca de oitocentos anos) já existiam em Flandres como organizações de autodefesa. Formaram-se corporações de atiradores também em outras regiões dos Países Baixos, do norte da França, da Saxônia, da Suíça, da Turíngia e do Tirol.
Estas corporações visavam treinar seus elementos no manejo das armas, além de cultivar o sentimento pátrio, a camaradagem e a recreação. As armas usadas inicialmente eram bestas ou balestras, sendo mais tarde substituídas por armas de fogo. Em algumas regiões da Europa estas corporações se destacaram pelo seu caráter militar.
Na Saxônia e na Turíngia lutaram os adeptos de João Huss, precursor da Reforma, que fora condenado pela Igreja. Após sua morte, seus seguidores iniciaram sangrentas guerras religiosas contra o Império Germânico. Na Suíça, as corporações lutaram contra o domínio austríaco. No Tirol, opuseram-se às investidas de Napoleão Bonaparte.
Na Alemanha medieval as corporações de atiradores tinham por finalidade a defesa contra os abusos dos senhores feudais e do poder real, além da proteção de suas cidades e comércio contra saqueadores e invasores.
Em tempo de paz, por ocasião da primavera, os participantes destas corporações organizavam competições de tiro. Aos prazeres deste esporte intercalava-se a sociabilidade e a inclinação para organizar grandes festas, das quais toda a população participava.
Na Idade Média, a burguesia foi assumindo responsabilidades políticas: à medida em que o feudalismo decaía, ela tomava o comando das tarefas de defesa.
Com o surgimento dos exércitos organizados e permanentes, as corporações foram perdendo suas características guerreiras e sua importância foi decaindo.
No século XIX, destas associações ficaram apenas os folguedos do SCHÜTZENFEST. Sua importância maior consistia na arte e na destreza do tiro. O atirador mais hábil era aclamado "Rei dos Atiradores". Em muitos lugares da Alemanha, a SCHÜTZENFEST durava uma semana inteira. Com o passar do tempo, as formas das festas evoluíram, mas permaneceu a sua finalidade.
Qualquer um podia ser Rei, representando a consciência da independência dos cidadãos num ambiente alegre.
Com a vinda dos imigrantes para Santa Catarina, a tradição da Festa do Tiro os acompanhou, tanto por ser a festa popular da Alemanha quanto porque foi a que melhor se adaptou ao novo meio.